Política e samba sempre se misturaram, em enredos como “O grande decênio”, da Beija-Flor, homenagem aos primeiros dez anos da ditadura militar, e em tributos a personalidades. “Salve o estadista, idealista e realizador/ Getúlio Vargas, o grande presidente de valor”, cantava aMangueira em 1956, em “O grande presidente”, samba do compositor Padeirinho que louvava o Pai dos Pobres.
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Um presidente da República no exercício do cargo — e em ano eleitoral — ser enredo na Sapucaí, no entanto, é um fato mais raro. A ancestral Deixa Falar citou Getúlio, então presidente, em 1932, ao desfilar como rancho naquele ano, com “A primavera e a revolução de outubro”. A agremiação enrolou a bandeira logo após o carnaval.
— Já tinha passado da hora de o presidente ser homenageado — diz Wallace Palhares, presidente da Acadêmicos de Niterói, escola que estreia no Grupo Especial com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, abrindo o desfile no domingo, dia 15 de fevereiro.
Entre as grandes
Palhares, que é professor de História, tem uma preocupação a mais, além de estruturar uma escola fundada há apenas oito anos para competir com as gigantes do Grupo Especial: — Temos uma equipe jurídica trabalhando o tempo todo para que nenhuma lei seja infringida e o desfile não tenha cara de campanha.
Segundo o advogado Alberto Rollo, especialista em legislação eleitoral, não há problema em a escola levar a biografia do presidente para a Avenida. — Podem contar a vida dele toda — diz Rollo. — De acordo com o artigo 36-A da Lei Eleitoral, o que não se pode é fazer pedido explícito de voto.
Mas até a explicitude pode ser relativa: existe o que o Tribunal Superior Eleitoral chama de “palavras mágicas”, segundo o advogado. —Seriam as propagandas implícitas, algo como dizer que o futuro seria melhor com Lula — explica ele. — Se algum setor da escola for visto fazendo isso, eles podem levar uma multa. O que pode acontecer com alguma pessoa isolada, também, se, por exemplo, for flagrada pelas câmeras dizendo “Lula 2026”.
Sem proibições
Ele reitera, no entanto, que não é provável que se proíba qualquer elemento do desfile — como já foi feito em outros tempos, notoriamente com o lendário Cristo mendigo da Beija-Flor em seu desfile de 1989. — Não se pode fazer censura prévia — lembra. — Algum adversário político do presidente, ou mesmo o Ministério Público, pode pedir uma liminar para ir ao barracão ver as alegorias antecipadamente, mas duvido que seja autorizado. Tudo será observado durante o desfile mesmo.
Em nota, a própria corte reafirma essa posição: “O TSE não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser analisados pelo tribunal”.
O presidente da escola diz normalmente, quando se fala em União na Sapucaí, trata-se daquela da Ilha do Governador, e, mais recentemente, a de Maricá, além de várias agremiações chamadas Unidos. Em 2026, no entanto, o União Brasil — ele mesmo, o partido político — deve aparecer no carnaval, na segunda escola a desfilar na sexta-feira, 13 de fevereiro, pela Série Ouro, segunda divisão da folia.
Os presidentes Lula, do Brasil, e Palhares, da Acadêmicos de Niterói
Divulgação
O presidente nacional do partido, Antonio Rueda, pré-candidato a deputado federal pelo Rio, deve desfilar pela Inocentes de Belford Roxo, que traz o enredo “O sonho de um tal pagode russo nos frevos do meu Pernambuco”.
Diferentemente da Acadêmicos de Niterói e seu enredo sobre Lula, a caçulinha da Baixada não cita explicitamente o político no samba ou no enredo: o tema é a cultura pernambucana e sua relação com a Europa, misturando frevo (que teria uma origem no Leste europeu, daí o clássico “Pagode russo”, de Luiz Gonzaga e João Silva, que brinca com as semelhanças entre os ritmos nordestinos e o trepak russo), maracatu e samba.
Dono de um escritório de advocacia importante em Pernambuco, Antonio Rueda é aliado de Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo, cidade onde está sediada a Inocentes. Na última semana, os dois estiveram na quadra da escola, onde foram recebidos pelo presidente Reginaldo Gomes, também político, ex-vereador e presidente municipal do MDB.
A ideia é usar o capital político de Canella para angariar votos para Rueda — o enredo, inclusive, teria sido escolhido especialmente para este fim que não terá no desfile a estrela do PT porque, segundo ele, não cabe no enredo: —Mas como vamos mencionar o clássico “Luar do sertão”, pode ser que alguém ache que as estrelas, do céu mesmo, são do PT…
O enredo da estreante Acadêmicos de Niterói narra a trajetória do presidente da infância pobre, em Pernambuco, até a “liderança mundial”, como diz o samba, composto por nomes fortes do gênero (e da esquerda cultural) como Teresa Cristina, Paulo César Feital e André Diniz, entre outros (são nove autores, ao todo).
— A minha família também veio de Pernambuco. Minha avó viajou com nove filhos e se instalou na comunidade do Fumacê, em Realengo — conta Palhares, que diz não temer vaias ou ódio dos opositores do petista.
Numa prévia na noite da última sexta-feira, quando a escola abriu os ensaios técnicos do Grupo Especial, os componentes da estreante cantaram forte o samba — principalmente o refrão-jingle “Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula” — e contaram com a animação do público. Nas arquibancadas, faixas exibiam propaganda de Lula. O rosto do homenageado (naquela imagem tradicional dos anos 1980, barbudo) estampava as camisas da diretoria e de várias alas, e telões exibiram provocações ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mesmo em um desfile praticamente sem fantasias, estiveram presentes referências aos operários, aos retirantes e aos formandos (em menção àparte do samba-enredo que fala que “tem filho de pobre virando doutor”).
Fora da Lei Rouanet
Nas últimas semanas correram nas redes notícias de que a escola teria captado R$ 15 milhões via Lei Rouanet (mecanismo federal que permite a empresas e pessoas físicas destinarem parte de seu Imposto de Renda para financiar projetos culturais).
—Nós inscrevemos o enredo na Lei Rouanet, como fazem todas as escolas — comenta Palhares. — Conseguimos a permissão para captar cerca de R$ 5 milhões, mas, como ficou muito em cima do carnaval, não tivemos tempo de fazer a captação e não vamos usar esse recurso. Vamos com a subvenção, dinheiro das prefeituras do Rio (cerca de R$ 4 milhões por escola) e de Niterói (mais R$ 4,4 milhões, apenas para Acadêmicos e Viradouro), uma verba que entrou da Embratur (mais R$ 1 milhão) e venda de ingressos, o normal.
Ele diz não saber exatamente o montante, mas a soma das várias fontes deve ficar em torno dos R$ 12 milhões.
Palhares confirma que a primeira-dama Janja e a família do presidente Lula estarão no desfile, mas não garante a presença do homenageado. Aliados têm dito que o petista viria para o camarote da prefeitura do Rio ou para o Camarote Favela, organizado pelo prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), mas o Planalto não confirma. — Essa é a pergunta de um milhão — brinca Palhares.
A possibilidade de Lula desfilar na Sapucaí está praticamente descartada por diversos fatores. A passagem do presidente pela Avenida pode pôr em risco a segurança pessoal do petista, além de deixá-lo exposto a vaias e a acusações, por parte da oposição, de propaganda eleitoral antecipada. Ofato de o político ser homenageado já desperta críticas e ações da oposição. Odeputado federal Kim Kataguiri (União-SP) protocolou na Justiça de São Paulo, na última quarta-feira, uma ação que contesta a transferência de recursos da Embratur para a Acadêmicos de Niterói. O órgão federal liberou o mesmo valor para as outras 11 escolas do Grupo Especial.
Colaborou Ivan MartínezVargas (Brasília).
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Política dá samba? Acadêmicos de Niterói aposta que sim em sua estreia no Grupo Especial
