Trump quer facilitar importação de carne nos EUA, o que pode favorecer empresas brasileiras

O governo americano estuda a possibilidade de facilitar as importações de carne bovina nos Estados Unidos, segundo o jornal The Wall Street Journal. A flexibilização seria temporária, com duração de 200 dias, segundo três fontes ouvidas sob condição de anonimato pelo site de notícias Politico.
Com os preços da carne moída acumulando alta de 40% nos últimos cinco anos, segundo relatório de analistas do banco Citi no Brasil, a medida seria uma tentativa de aliviar a inflação de alimentos nos EUA.
Processadores brasileiros, como Minerva, MBRF (união de Marfrig e BRF) e JBS poderão sair ganhando, mas uma maior demanda por exportações pode pressionar os preços das carnes por aqui.
— Essa abertura, para o Brasil, é muito importante — disse José Carlos Hausknecht, sócio da consultoria MB Agro.
Ele pondera que a redução de restrições a importações tenderá a sofrer oposição dos produtores americanos, como ocorreu quando a Casa Branca anunciou, recentemente, uma flexibilização apenas para as exportações da Argentina.
Segundo o relatório do Citi, o frigorífico brasileiro que ganhará mais é o Minerva, dado seu modelo de negócios voltado à exportação. No pregão de ontem na B3, as ações do Minerva saltaram 4,63%, a R$ 4,29. MBRF e JBS têm ganhos menores, porque são donas de frigoríficos nos EUA e usam as importações em suas estratégias — seus papéis recuaram 2,55%, a R$ 16,82, e 2,67%, a R$ 76,31, respectivamente —, mas ainda assim as duas companhias poderão se beneficiar, escreveram os analistas.
Rebanho menor
Os EUA eram os maiores produtores globais de carne bovina desde os anos 1960, segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA, equivalente a um ministério), mas o mercado doméstico de lá é também o maior do mundo. Nos últimos anos, passou a importar. Inicialmente, cortes de segunda, para fazer carne moída e hambúrguer, focando na produção de cortes nobres.
Ao mesmo tempo, o Brasil avançou. O país havia assumido o posto de maior exportador do mundo. No ano passado, tomou a posição de maior produtor, conforme estimativas do USDA. Em parte, por causa da redução do rebanho americano, no menor nível em 75 anos, segundo o relatório do Citi — explicada pela dificuldade de ampliar a reprodução do gado, devido a secas sucessivas nas regiões produtoras, disse Hausknecht.
Com isso, está faltando carne. Em 2021, os EUA importaram 10% do consumo doméstico, segundo relatório do USDA. Ano passado, a fatia passou a 20%, de acordo com a reportagem de ontem do Wall Street Journal. A escassez explica a disparada de preços, de um item muito consumido pelo americano médio, que pesa no bolso do eleitorado e, portanto, na popularidade de Trump, lembrou o sócio da MB Agro.
Os EUA restringem as importações usando cotas, ou seja, os países podem vender com tarifa baixa até determinada quantidade; a partir desse limite, há uma tarifa de pouco mais de 26% — isso antes mesmo do tarifaço generalizado anunciado em 2025. O governo Trump pretende suspender temporariamente essa restrição de cotas.
Esses limites variam conforme o país. Produtores e fornecedores tradicionais dos EUA, como Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai, têm quantidades específicas para cada um. O Brasil entra na cota de “outros países”, de 65 mil toneladas por ano.
Dada a falta de carnes no mercado americano, o Brasil vinha exportando para lá acima do limite, mesmo com a tarifa maior. Ano passado, foram 126 mil toneladas, na soma de carnes congeladas, frescas e resfriadas, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, a mesma quantidade foi atingida.
— Se zerar mesmo todo mundo, o Brasil vai nadar de braçada — disse Hausknecht.
China no limite
A flexibilização americana virá em boa hora para os produtores brasileiros por causa das restrições da China, maior mercado para o Brasil. No fim do ano passado, Pequim também anunciou uma política de cotas para melhorar os preços para os produtores locais, explicou Hausknecht.
O limite brasileiro poderá ser atingido já este mês, conforme o Citi. Assim, vendas que iriam para a China, mas esbarrariam no limite de lá, poderão ser direcionadas para os EUA.
Isso reduzirá a chance de alívio nos preços por aqui. “Uma demanda mais forte dos EUA ajuda a absorver parte do excedente potencial brasileiro, reduzindo o risco de que as carnes redirecionadas da China inundassem o mercado doméstico, pressionando (para baixo) os preços locais”, diz o relatório do Citi.
*Com agências internacionais



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