O tempo passa e euzinha sigo de olho nas agulhadas. Dois meses após o início da aplicação da semaglutida (nome bonito do Ozempic) na rede pública de saúde do Rio, pelo programa de tratamento à obesidade da prefeitura, já aviso que acompanharei a evolução das primeiras pacientes pelos próximos meses. Maria das Graças da Silva — a Graça, como prefere ser chamada —, de 69 anos, e a minha quase xará Elma Silva Gonçalves, de 44, serão protagonistas dessa minha série (olha como estou chique).
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Até agora, são 320 pessoas selecionadas para o tratamento, que começou, como projeto-piloto, no Supercentro de Saúde da Zona Oeste, em Campo Grande, para onde dei um voo na última quarta-feira e acompanhei a visita semanal das minhas amigas por lá.
Segundo a Secretaria municipal de Saúde, 84% dos selecionados — pessoas com índice de massa corporal (IMC, calculado a partir do peso e da altura) acima de 40, que indica o maior grau de obesidade, e que têm diabetes ou comorbidade com alto risco cardiovascular — já perderam uns quilinhos.
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— Esse é um projeto diferente, que não existe em outras cidades, então estamos indo devagar no número de contemplados. É um modelo multiprofissional, a gente está conseguindo que todos sejam acompanhados por diversos profissionais. Conseguimos que 38% dos pacientes do programa incorporassem o hábito de fazer atividade física — comemora o secretário Rodrigo Prado.
‘Todo mundo me reconhecia’
Primeira paciente a receber semaglutida no SUS do Rio foi Maria das Graças da Silva
Júlia Aguiar / Agência O Globo / 18-03-2026
Em Campo Grande, reencontrei Graça, paciente 01, que recebeu a primeira agulhada das mãos do então prefeito Dudu Paes, em 18 de março. Naquele dia, a moradora de Santíssimo, que pesava 137 quilos, se viu nos holofotes. Dali em diante, a dona de casa que faz delícias para eventos — da feijoada ao bolo — passou a ser reconhecida pelos vizinhos e até por desconhecidos.
— Na primeira festa em que trabalhei após o Ozempic, a minha freguesa falou: “Você só vai ganhar pela metade do dia, porque na segunda vai ter que dar entrevista para todo mundo”. Todo mundo me reconhecia — diverte-se Graça.
Maria das Graças da Silva: paciente número 1 do tratamento com Ozempic no SUS perdeu peso em dois meses
Editoria de Arte
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Oito semanas depois do início do tratamento, ela chegou aos 128,5 quilos, notícia parabenizada pela farmacêutica Aline Augusto, que aplicou a canetada da semana. Graça também teve a atenção de psicólogo, nutricionista, médico e um “personal”, como define.
— Essa parte é para entender a capacidade funcional do paciente. A condição às vezes atrapalha o dia a dia — diz o educador físico Lucas Villar, que acompanhou Graça na área de reabilitação do Supercentro.
Maria das Graças na esteira durante visita ao Supercentro de Campo Grande, acompanhada pelo educador físico Lucas Villar
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
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Graça gargalhou ao levantar peso:
— É para saírem essas banhas, que já estão balançando bem.
Ema Jurema oberva Graça durante exercícios
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Em casa, a paciente número 1 segue os exercícios orientados, como o de levantar e sentar seguidas vezes. Uma queda numa rampa há duas semanas machucou sua perna, o que tem atrapalhado algumas atividades. Uma sessão de acupuntura feita no próprio Supercentro, no entanto, ajudou a aliviar as dores.
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‘É coisa de Deus’
Os problemas de circulação que ocasionavam idas frequentes à emergência, porém, nunca mais a fizeram procurar o hospital com dor. Com a evolução para um novo pensamento, os amados pães franceses também sumiram da mesa.
— Não como mais. Outro dia, quando meu genro comprou quentinho, comi um pãozinho, mas aprendi que tem que comer com uma proteína, então fiz ovo mexido para acompanhar. Mas sabe que não tem mais graça? — conta. — É coisa de Deus. Entrou na cabeça de tal maneira que enjoei de pão.
Sem fome por conta do remédio, Graça também aderiu ao cardápio com frutas, além de uma sopinha de legumes com carne. Nas festas em que trabalha, por outro lado, não devora os quitutes.
Maria das Graças: a primeira paciente a receber semaglutida pelo SUS do Rio durante a aplicação de mais uma dose
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
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Sem enjoos, mas com um quadro de constipação resolvido por uma receita do nutricionista, Graça viu a circunferência diminuir em 11 centímetros — suficiente para conseguir passar creme nas pernas.
— Antes, eu não era feliz. Botar a roupa não me agradava, não queria sair porque tinha vergonha. Agora estou muito feliz.
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Família incentiva com exercícios na rua
Assim como Graça, que se anima com a condição física melhorando, para enfim voltar a ajoelhar na igreja ou conseguir encarar o voo até Portugal para visitar a irmã, Elma também viu a autoestima de volta ao se dedicar ao tratamento, iniciado em 25 de março. Na balança, nesses menos de dois meses, ela foi dos 141 quilos para 133. Seu IMC, que já foi de 61, está em 57 hoje.
— A gente tem que mudar para a gente mesmo, né? Porque, se não mudar, como alguém vai mudar por você? — explica minha quase xará.
Elma durante exercícios no Supercentro de Campo Grande
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Elma mudou a alimentação — “como de tudo, mas pouco” — e, também por incentivo da família, caiu dentro dos exercícios. A cunhada, Márcia, que a acompanha nessa nova vida, também viu a saúde melhorar, com a perda de peso.
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‘Não quero fazer bariátrica’
E não parou por aí. Os filhos Lucas, de 27 anos, Davi (16) e Ismael (11) passaram a correr junto com Elma, enquanto a filha caçula, Pérola (7), quer comer as mesmas coisas que a mamãe, que se sente orgulhosa pelo acolhimento.
Quem se deu mal nessa história foi o maridão de Elma, Kleiton, que admitiu gostar da esposa enquanto gordinha. Além disso, nunca mais viu no cardápio a tão amada lasanha preparada pela mulher. Hoje, além das caminhadas, Elma também faz exercícios nos aparelhos instalados pela prefeitura próximo de casa, em Santíssimo, e pretende, em breve, até se matricular numa academia de musculação e “manter o foco para o resto da vida”.
— Não quero chegar ao ponto de fazer bariátrica. Se eu consigo fazer uma reeducação alimentar. Estou tendo uma força da aplicação (do Ozempic), beleza, mas e quando ela acabar? Vou ter que me esforçar mais ainda — avalia Elma.
Até mesmo quando as coisas não saem como o planejado, o acompanhamento no Supercentro da Zona Oeste tem surtido efeito: ao lamentar que não perdeu peso na última semana, os profissionais que a atenderam explicaram que isso podia ter sido consequência do período menstrual. Força, Elma! Vamos nessa!
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Licitação irá garantir mais doses para abastecer programa
A queda da patente do Ozempic no fim de março foi comemorada pela prefeitura, já que isso diminuiria o preço do medicamento no mercado, já que mais concorrentes poderiam passar a produzi-lo.
Atualmente, uma licitação — que está em fase de registro de preços — é aguardada para abastecer os estoques da cidade. Euzinha liguei para o secretário Rodrigo Prado esses dias e ele contou que, na quinta-feira, as empresas entregarão suas propostas. O titular da pasta da Saúde, no entanto, afirma que o programa com as canetas emagrecedoras no SUS não deve ser ampliado de forma abrupta na cidade do Rio:
—Vamos ter que crescer aos poucos. Esse é um programa diferenciado, não adianta colocar um monte de gente para dentro e não ter a capacidade de fazer esse acompanhamento, que é um modelo individualizado para cada paciente.
Até o momento, nenhum dos contemplados no Supercentro de Campo Grande desistiu do tratamento.
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