O segurança de rua Davi Santos Machado, de 21 anos, compareceu à 12ª DP (Copacabana) para prestar depoimento no caso do espancamento que resultou na morte de Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos. pedalando a bicicleta usada pela vítima. O veículo, que pertencia a uma irmã de Cláudio, tinha sido levada na noite do crime por outro acusado como mostram imagens analisadas pela polícia.
Davi prestou depoimento inicialmente na última segunda-feira como testemunha, ocasião em que negou ter participado das agressões. No dia seguinte, ele retornou à delegacia, quando confessou a participação no crime.
Outros três acusados de participação no crime estão presos desde a semana passada. A polícia ainda tenta identificar um quinto suspeito de envolvimento no espancamento. Cláudio Rafael foi morto após ser submetido a uma sessão de espancamento. A vítima levou 63 pauladas em nove minutos de agressão, diz laudo da perícia, a que o Fantástico, da TV Globo, teve acesso.
Segurança chega para depor na bicicleta de vítima de espancamento
Novas imagens mostram a cronologia dos fatos e a participação dos seguranças de rua clandestinos Davi Santos Machado e Jorge Luiz Ricardo Dias e dos entregadores de aplicativo Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da Silva, os quatro já presos temporariamente, nas agressões. Eles são investigados por linchar a vítima após confundi-la com um ladrão.
As novas imagens obtidas pelo Fantástico mostram Cláudio Rafael deixando a vila onde morava, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, às 22h26 do último dia 11 e chegando a uma loja de conveniência na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, 28 minutos depois. Rafael sai da loja, cumprimenta dois homens e encosta na parede.
— Ele tinha entrado para pedir um cigarro varejo. Perguntou se eu poderia dar um cigarro para ele. Aí eu falei que não tinha como, só pagando. Ele desistiu e foi lá para fora — disse o atendente da loja, que preferiu não se identificar, ao Fantástico.
Às 23h21, o segurança Davi Santos Machado conversa com Rafael na frente da loja. De acordo com as investigações, ali perguntava de quem era a bicicleta. Segundo o funcionário da loja de conveniência, a pergunta foi feita três vezes, ao que Rafael respondeu dizendo que não era o dono. A bicicleta pertencia a uma das irmãs da vítima.
O funcionário prendeu a bicicleta com cadeado e, em seguida, David aciona outro segurança de uma rua próxima pelo celular, de acordo com as investigações.
Às 23h37, o outro vigia, Jorge, surge pela primeira vez nas imagens e, em seguida, monta na bicicleta e vai embora com ela. Rafael tenta impedir, e o segurança David tenta contê-lo. Segundos depois, David entra em um restaurante e volta com um porrete, usado para atacar Rafael naquele momento. Até que Jorge consegue deixar o local com a bicicleta e vai pedalando até a praia, como mostram as imagens. Depois de discutir com David e tomar os primeiros golpes, Rafael atravessa e segue para uma outra via.
Por volta de meia-noite, circulou entre os entregadores a informação de que havia um ladrão de bicicleta na área. Os entregadores Felipe e Aílton chegam ao lugar onde Rafael sofreu as primeiras e, de acordo com as investigações, são avisados por David de que o suposto ladrão havia acabado de passar ali. Os entregadores seguem em sua busca de Rafael e o encontram na Rua Felipe Oliveira, sentado na escadaria de um prédio. David e um homem de camisa branca numa outra bicicletavêm logo atrás.
Felipe e Aílton chamam Rafael de ladrão, David chega correndo e começa o linchamento. Um homem não identificado aparece na cena e dá um chute. Rafael cai no chão, já sem forças. David volta a dar pauladas nele e chuta violentamente seu rosto. Após nove minutos de brutalidade, o grupo vai embora. Ele ficou 30 minutos agonizando até a chegada do Corpo de Bombeiros. Foi socorrido no Hospital Miguel Couto, na Gávea, mas morreu horas depois, na madrugada do dia 12.
— A equipe ficou muito estarrecida com essas imagens. Todos os investigadores que tiveram acesso a essas imagens ficaram consternados com as agressões. Ele tomou pauladas não só no corpo, mas também diversas na cabeça. Ele ficou cerca de 30 minutos aguardando o socorro e a gente percebeu ele lutando pela vida. Ele ficou tentando levantar até que o Corpo de Bombeiros chegou — disse Ângela Lages (12ª DP, Copacabana), delegado responsável pelas investigações.
Imagens das câmeras de segurança das ruas de Copacabana revelam que pelo menos sete pessoas se mobilizaram na perseguição ao Claudio Rafael.
— Todas as pessoas que presenciaram essa cena e estiveram ali serão identificadas. A gente pretende ouvi-las, até porque elas podem responder pelo crime de omissão de socorro. Embora elas não tenham agredido a vítima, elas presenciaram e nada fizeram — afirmou Lages. — A sociedade não deve aceitar esse tipo de conduta (justiçamento). A Justiça é um monopólio do Estado. Somente as polícias devem agir na segurança pública. Existe um ordenamento jurídico e todos têm direito ao devido processo legal.
Em junho, a própria vila onde Cláudio Rafael morava com a família já foi alvo de ataque de justiceiros. Um grupo de 20 entregadores arrombou o portão e promoveu um quebra-quebra, a procura de um homem acusado de dar calote. Acabaram afetando moradores que nada tinham a ver com o caso.
— Justiça com as próprias mãos, isso não existe. O trabalho é da polícia e ponto, entende? Por mais que eles já estejam presos, tem que dar continuidade a todo o processo, não deixar isso cair no esquecimento. Se depender de mim, não vai. Eu não vou parar, não vou desistir. Vou lutar até o fim pelo meu irmão — garantiu a Fabiana Motta Landeiro Hansen, 25 anos, uma das irmãs de Rafael. — Ele era muito protetor comigo, ainda mais por eu ser sua irmã mais nova, ser mulher. Uma pessoa muito tranquila, muito doce.
Prisões mantidas
No fim de semana, a Justiça do Rio manteve, após audiência de custódia, as prisões temporárias dos quatro envolvidos no caso. Eles estão custodiados no Presídio José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte da cidade.
Os juízes Rafael de Almeida Rezende e Laura Noal Garcia, da Central de Audiência de Custódia da Capital, consideraram que os mandados de prisão foram regularmente expedidos e permanecem dentro do prazo de validade. Permanecem válidos ainda, justificam os magistrados, os fundamentos que levaram à decretação das prisões temporárias.
— Recebemos com respeito a decisão que manteve as prisões temporárias, reconhecendo a importância da continuidade das investigações neste momento. Esperamos que, com o encerramento do inquérito policial, haja a completa individualização das condutas e a devida análise, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, da necessidade de conversão das prisões temporárias em preventivas daqueles contra os quais estejam presentes os requisitos legais — afirma o advogado que representa a família da vítima, Bryan Rojenberg.
‘Você vai ficar rindo?’
Principal autor da agressão, e um dos encarregados de fazer vigilância clandestina de uma rua do bairro, Davi Santos Machado chegou a filmar o espancamento com um celular enquanto agredia a vítima com golpes de um cassetete.
As cenas foram divulgadas em um grupo de conversas de aplicativo usado por entregadores. O segundo segurança é suspeito de participar indiretamente do crime ao retirar a bicicleta usada pelo ciclista do local onde ela começou a ser agredida, na Rua Barata Ribeiro.
A Polícia Civil investiga a participação de uma quinta pessoa na morte do ciclista: um homem de casaco cinza com listras, que aparece quando a vítima já estava sendo espancada, num segundo momento, pelo segurança Davi Santos Machado e pelos entregadores na Rua Felipe Oliveira. A sessão de espancamento foi flagrada por uma câmera de segurança.
O segurança Jorge Luiz Ricardo Dias afirmou à Polícia Civil que tentou advertir Davi Santos Machado, colega de trabalho, durante o espancamento. Segundo relato, Cláudio estava caído na calçada e sem qualquer reação quando continuava sendo agredido. Depois de deixar o local, Jorge disse ter questionado o colega: “Você vai ficar rindo? Tem noção do que você fez?”. Segundo seu depoimento, Davi não respondeu e continuou “rindo”, “achando graça”.
No depoimento prestado à Polícia Civil, Jorge também afirmou que foi o segurança Davi quem o chamou inicialmente para o local onde Cláudio foi abordado por causa de uma bicicleta e que o colega conhecia e chamou os dois entregadores que participaram das agressões. Segundo Jorge, Davi estava “muito agressivo” e acredita que tenha sido o colega quem deu ordens e incentivou os demais a atacar a vítima.
Ao chegar ao local, segundo ele, encontrou Davi, a bicicleta e Cláudio. Davi teria pedido que Jorge guardasse o veículo até a chegada do proprietário. Jorge afirmou que a vítima não permitia que levassem a bicicleta, embora dissesse que ela não lhe pertencia. Segundo o depoimento, diante da situação, Davi começou a agredi-lo com socos.
Ainda de acordo com Jorge, Davi entrou num bar e restaurante, pegou um cassetete e passou a desferir golpes contra Cláudio. A vítima conseguiu fugir do local, mas retornou em seguida para buscar a bicicleta. Jorge afirmou que Davi ameaçou agredi-lo novamente.
Depois disso, segundo o depoimento, Jorge montou na bicicleta e seguiu pela Rua Belford Roxo em direção à Rua Duvivier, onde permaneceu até o fim de seu horário de trabalho.
Ao sair, afirmou que foi procurar Davi portando um cassetete preto que, segundo ele, costuma levar para casa. Na Rua Felipe de Oliveira, disse ter encontrado Davi e dois entregadores agredindo Cláudio.
Segundo Jorge, o ciclista já estava caído na calçada e sem qualquer reação quando era atacado pelos três homens. Ele afirmou ter gritado para Davi:
“Davi, sai daí! Vai ficar batendo no rapaz aí? Se aparecer uma viatura, você vai rodar no flagrante!”, diz o depoimento.
Segundo o relato, Davi foi em direção a Jorge e os dois deixaram o local juntos, seguindo pela Rua Belford Roxo. Durante o trajeto, Jorge disse ter voltado a confrontar o colega:
“Você vai ficar rindo? Tem noção do que você fez?”, teria dito Jorge ao colega de trabalho.
Davi, segundo ele, não respondeu e continuou rindo.
Jorge afirmou que não agrediu Cláudio. Apesar de dizer que advertiu Davi durante o espancamento, Jorge afirmou que não solicitou socorro para a vítima. Segundo ele, não acionou a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Samu, o Corpo de Bombeiros ou qualquer outro serviço público.
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Barbárie em Copacabana: segurança preso por espancamento chega para depor em bicicleta da vítima; veja o vídeo
