Estados Unidos acusam Brasil de usar trabalho forçado na criação de gado

A investigação aberta pelos Estados Unidos sobre uso de trabalho forçado aponta não apenas supostas falhas do governo brasileiro em impedir a importação de mercadorias fabricadas com violação a leis trabalhistas, como também a acusação de uso de trabalho forçado em atividades econômicas brasileiras cujos produtos são exportados para outras nações, o que restringiria o comércio americano.
Neste segundo caso, o foco é a carne bovina congelada exportada do Brasil para a China. Os EUA usam o suposto trabalho forçado na criação de gado no país para justificar a punição aos chineses. Argumentam que o desrespeito a normas trabalhistas no Brasil teria permitindo ao país vender carne mais barata para Pequim. Como retaliação, a recomendação é que produtos chineses importados pelos EUA sejam taxados em 12,5%.
Quem está à frente da investigação é o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que divulgou relatório nesta quarta-feira com suas conclusões.
Há um espaço do relatório dedicado a estudos de caso, que têm por objetivo mostrar como o trabalho forçado usado por concorrentes dos EUA afeta produtores e empresas americanas.
De acordo com o relatório, o uso de trabalho forçado na criação de gado no Brasil “é amplamente documentado”.
Salto de exportações para a China
Os dados citados mostram que, entre 2015 e 2025, as exportações de carne congelada brasileira para as economias investigadas quase dobrou em volume, enquanto o crescimento da carne americana para essas nações foi de apenas 21%.
Especificamente para a China, as exportações brasileiras saltaram 17 vezes no período, de 94 mil toneladas para 1,6 milhão de toneladas, segundo o documento. Isso fez a fatia do produto brasileiro nas importações de carne chinesas subir de 38% em 2021 para 53% em 2025. Já a participação da carne americana nas compras chinesas caiu de 6% (2021) para 2% (2025).
Os investigadores citam ainda que a China importou a carne congelada do Brasil por valor 41% inferior ao importado dos EUA em 2025.
EUA reconhecem fatores na perda de mercado
Apesar das acusações contra o Brasil, o USTR reconhece que nem toda carne importada da China teria usado trabalho forçado e que há outros fatores que podem ter levado à redução das vendas de carne americana para os chineses.
“Embora nem todas as importações chinesas de carne bovina congelada provenientes do Brasil tenham sido necessariamente produzidas com trabalho forçado, a prevalência do trabalho forçado na produção de carne bovina no Brasil sugere fortemente que pelo menos parte dessas importações foi produzida, total ou parcialmente, com o uso de trabalho forçado”, diz o relatório.
“A falha da China em impor e aplicar de forma efetiva uma proibição à importação de produtos produzidos com trabalho forçado no caso da carne bovina congelada brasileira conferiu uma vantagem de custo à carne bovina do Brasil e distorceu a concorrência”, continua o USTR.
“Embora outros fatores, como o tamanho do rebanho bovino dos Estados Unidos, também possam ter influenciado a competição entre a carne bovina americana e a brasileira, o relatório sustenta que a ausência de uma proibição às importações associadas ao trabalho forçado favoreceu os exportadores brasileiros”.
O relatório conclui que, em um cenário com fiscalização mais rigorosa, os Estados Unidos provavelmente teriam registrado maiores vendas, receitas e exportações de carne bovina para a China.
Essa leva de investigação do USTR não se restringe ao Brasil. São 60 países na mira, todos acusados de importar produtos que usam trabalho forçado.
Há a recomendação de taxação de 10% ou 12,5% sobre as mercadoreas dessas nações, uma vez que seus governos teriam falhado em coibir a importação dos produtos. O Brasi está no grupo de 12,5%. Uma decisão definitiva sobre essa nova onda de tarifas ainda será tomada. Uma audiência está marcada para o dia 7 de julho.
Há outros estudos de caso citados no relatório, como o de tabaco produzido em Malawi e o arroz cultivado em Myanmar. Em ambas as situações, o documento compara a exportação desses países com as exportações do mesmo produto pelos EUA e diz que falhas para fiscalizar importação de tabaco e arroz que usam suposto trabalho forçado em Malawi e Myanmar prejudicaram produtores americanos.



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