Leticia Colin já foi uma imperatriz amada pelo povo, vilã sem escrúpulos que virou meme, médica que emocionou o público ao travar uma batalha contra as drogas… Mas nunca antes havia assumido o posto de mocinha protagonista do horário nobre da TV Globo. Agora, o cenário muda na trajetória da atriz de 36 anos com a chegada de Adriana, personagem de “Quem ama cuida”, próxima novela das nove, que estreia na próxima segunda-feira (18).
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— As pessoas estão vendo as chamadas e chegam em mim muito felizes. Me falam na rua: “Estou esperando, não vejo a hora de começar, vou te assistir”. Isso me fez muito bem, me deu uma força. Ao mesmo tempo, me traz a responsabilidade de responder à altura. Me preocupa fazer o tempo do espectador valer a pena — diz a artista, que soma 28 anos de carreira.
Na novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Leticia conquistou um papel denso. Adriana é uma fisioterapeuta batalhadora que fica viúva e perde a casa numa enchente em São Paulo logo no início da história. Depois de passar um tempo num abrigo com a família, ela vai trabalhar na mansão do empresário milionário Arthur Brandão (Antonio Fagundes). Eles ficam amigos, e o ricaço a propõe um casamento de fachada, tanto para impedir que sua fortuna fique nas mãos de parentes ambiciosos quanto para ajudar a mocinha. Tudo muda quando ele é assassinado e a protagonista é acusada injustamente pelo crime. Após seis anos presa, ela decide descobrir quem é o verdadeiro assassino.
Adriana (Leticia Colin) na novela “Quem ama cuida”
Beatriz Damy/Rede Globo
— Ser presa injustamente é uma das maiores atrocidades que podem ser cometidas. No Brasil, isso é muito comum, mais da metade da população carcerária está lá sem julgamento, sem aprofundamento dos fatos. Falar de injustiçados aqui é algo muito importante — diz Leticia.
Nesta entrevista, ela conta como se preparou para viver as tragédias de Adriana, expressa de que forma encara o desafio de protagonizar o horário nobre da Globo, aborda o reencontro com o ator Michel Melamed, de 50 anos, com quem reatou o casamento, detalha a relação com o filho Uri, de 6, e muito mais.
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
O que o posto de protagonista das nove significa para você?
Eu pedi para fazer o teste para esse papel, foi uma conquista especial. Mas nunca enxerguei minhas personagens coadjuvantes como menores. Elas foram as protagonistas da minha vida. A dedicação, a pesquisa, o comprometimento são os mesmos. Claro, não sou ingênua em relação à amplitude, à força da novela das nove. Ela chega no Brasil inteiro, são milhões de pessoas assistindo todos os dias, fora o streaming e os recortes que viralizam nas redes sociais. Mas tenho o coração tranquilo porque me exercitei a vida inteira. Comecei com 8 anos (num comercial com a Xuxa) e fiz sempre o melhor que eu pude. É o que faço agora.
Por que Adriana foi uma conquista especial?
Sempre gostei de teste, o que é um pouco fora do comum. A gente geralmente associa à tensão. A vida de muitos artistas vira um tormento. Quando eu comecei criança, fazia muitos testes. Nunca perdi essa leveza de pensar que estou ali me experimentando na frente da câmera, descobrindo a personagem. Fui aperfeiçoando isso ao longo da carreira, dominando esse espaço da atriz que está sendo testada e se divertindo. Ter vivido isso com o apoio dos meus pais foi fundamental. Nunca teve peso, sempre entendi que o “não” não era por conta da qualidade do meu trabalho, era uma questão circunstancial.
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Você acredita que chegou nesse protagonismo no momento certo?
Não sei se acredito muito nisso de momento certo. Eu acho que todas as histórias são possíveis. Pessoas que estão menos preparadas ou menos maduras podem ser boas para um personagem. Outras podem ser excelentes, mas não rolar um match do texto com o público. Não tem receita. Eu estou feliz agora, e o grupo de “Quem ama cuida” é muito agradável, divertido, leve, competente. Tem atores que eu cresci vendo, queria estar perto deles; existem os da minha geração, que eu admiro e estou reencontrando, como a Agatha (Moreira) e o Chay (Suede).
A sua química com o Chay em “Segundo sol” (2018) foi muito elogiada. Agora, ele faz Pedro, o par romântico de Adriana. Como tem sido construir esse novo casal com ele?
Nós nos conhecemos há anos, nos damos muito bem… É como se a gente se reconhecesse um no artista que o outro é. Admiramos nossas famílias e histórias também. Chay é um dos atores com quem eu já trabalhei que mais improvisa, e faz isso maravilhosamente. Gosto desse processo. Então, a gente tem uma fluidez em cena que é natural. Em “Segundo sol”, Rosa e Ícaro eram explosivos, agressivos, tinham um romance desde o início. Em “Quem ama cuida”, Adriana e Pedro são muito delicados um com o outro, é um relacionamento que acontece nos olhares, no que não está dito. É um desafio imenso construir um casal que seja interessante, comova e encante. Às vezes, interferimos um pouco no texto um do outro, sugerimos coisas. Estamos felizes com o nosso reencontro.
Leticia Colin e Chay Suede em ‘Quem ama cuida’ e em ‘Segundo sol’
Divulgação/TV Globo
Na vida pessoal, você também viveu um reencontro ao reatar o seu casamento com Michel Melamed (os dois anunciaram a separação após quase uma década juntos, ficaram cerca de dois anos separados e confirmaram o retorno em janeiro de 2026). O que reconstruiu a relação de vocês?
O amor é mais forte do que a gente imagina. Ele é um monte de coisas, é muito mais do que a ilusão romântica que eu tinha quando mais jovem. O amor é mais do que qualquer ilusão que me ensinaram, que vi nos livros e nos filmes ou que me prometeram. O amor adulto aceita o ser humano como inteiro, é revolucionário mesmo. Construir uma família é uma coisa muito linda e complexa, exige trabalho psíquico, emocional, presença, reinvenção. Então, me interessa muito aprender ao lado do Michel. O tempo com ele é bom, é prazeroso, divertido, respeitoso. Eu o admiro profundamente. Então, a gente tem muita história ainda juntos. Um sentimento forte renasceu. Digo que renasceu porque naquela época de fato acabou. Às vezes, você tem que aceitar que as pessoas têm limites, e aí existe um ponto final. Mas, de repente, você vira a página e o livro continua, você pensa: “Ué, achei que tivesse acabado, mas não”. Tenho gostado de me surpreender com a amplitude desse amor.
Você contou que fazer terapia de casal já havia sido benéfico para vocês no passado. Ajudou nesse retorno também?
Sim. Sigo acreditando e recomendo, é uma ferramenta muito séria de transformação para você conseguir escutar o outro e espelhar a si mesmo.
Michel Melamed e Letícia Colin
Cristina Granato/ divulgação
Você já comentou que a cobrança interna também já foi levada para a terapia… Como tem sido agora como protagonista das nove?
Tenho melhorado com o tempo, estou sendo mais gentil comigo mesma.
Como se preparou para as situações extremas pelas quais Adriana passa na história?
Com uma vida inteira. Sempre fui uma criança, uma adolescente e uma mulher intensa. A saúde mental ajuda no processo. Levo sempre minhas personagens para a análise, mas conhecer bem o próprio aparelho psíquico, quem eu sou, faz com que eu não caia em alguns gatilhos. Fico mais resistente para trabalhar em paz. Cuido da Leticia para que a Adriana possa ir e vir com tranquilidade.
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Estudou para ser fisioterapeuta na ficção?
Tive muitas questões de somatização que aparecem no corpo. Já operei a mão, meu joelho é um pouco frágil, já fiz fisioterapia respiratória por conta da asma… O meu mental sempre foi muito para o corpo, eu adoecia nos momentos de mais estresse. Então, eu conheço fisioterapeutas em diversas áreas. Agora aciono esses profissionais quando preciso tirar uma dúvida sobre um termo, uma posição certa de uma pegada ou exercício.
Sente uma pressão extra para tornar uma mocinha uma pessoa interessante e complexa?
Nosso coração está tão endurecido… É uma loucura achar que que a mocinha que busca por justiça e é boa não pode ser interessante. Acredito que isso tem a ver com uma descrença política, um mundo cheio de guerra, as hiperperformances nas redes sociais. Como se uma pessoa ética não fosse suficiente. E, claro, não topamos mais narrativas que vejam a mulher de uma maneira só, sem profundidade, as sombras, as dores. Mostramos uma mulher real, com desejos, que erra, que tem dificuldade para dar conta de tudo, se descontrola, sofre, goza, é feliz, um ser humano na sua completude.
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Podemos esperar uma história de vingança com Adriana?
Sim. A essência dela permanece a mesma, mas, depois de seis anos na prisão, Adriana fica ruminando o que fizeram com ela, organizando uma nova abordagem no mundo contra as pessoas que cometeram essa injustiça. Dá uma carga diferente para a personagem. Ela amadurece e endurece.
O que Adriana já te ensinou?
A força que tem uma família unida. Eu sou temporã (quem nasce muito tempo depois dos outros filhos), meus irmãos foram morar em diferentes lugares, e a gente ficou distante. Mas a Adriana me lembra a época em que estava todo mundo em casa e que era muito bom, me reconecta com memórias boas.
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Viralizou um vídeo de você andando de metrô no dia do show da Shakira no Rio. Do que você não abre mão de fazer mesmo sendo famosa?
Preciso muito de tudo que é rotineiro. Ir ao mercado, buscar meu filho na escola, vez ou outra usar um transporte público para fazer algo na cidade, me sentir misturada naquele fluxo real. Quando vou para o interior de São Paulo, em São Carlos, a cidade da minha família, gosto de andar no Centro e fazer compras na Baixada (Mercado Municipal).
E tem algo que não faz por conta da fama?
Eu adorava fazer programas com meu filho no shopping. Hoje, nos dias mais cheios, a gente evita. Não por mim, é mais por ele. Tenho passado menos tempo com o Uri porque estou trabalhando bastante. E, quando saímos, as pessoas pedem para tirar foto comigo. Ele fica enciumado, tem dificuldade de aceitar. Acho justo, ele tem 6 anos e sou a mãe dele. Só que eu não deixo de atender ninguém. Aí ele fica um pouco confuso com os sentimentos. Para poupá-lo, escolho uma programação onde eu possa ficar mais disponível para ele.
Leticia Coline e o filho Uri
rep/ instagram
Como é para ele ter pais artistas?
A arte está muito inserida no nosso cotidiano, brincamos de encenar coisas com os bonecos dele, de figurino e caracterização com fantasias, mexemos com tinta, às vezes escrevemos um roteirinho de algo que ele quer repetir para os avós como uma apresentação… Mas tudo é muito natural. Uri é uma criança que tem o lúdico bem aceso. E está empolgado com a novela, já falou que quer ver. Pensei: “Essa é pesada, acho que não vai dar”. Mas é que tem um cachorrinho que a gente resgata na cena da enchente. E aí todo dia que eu chegava em casa, ele falava: “Hoje você gravou com o cachorrinho?”. Ficou com isso na cabeça. Acho que vou fazer uma seleção de cenas que ele pode assistir.
Equipe
Texto e produção executiva: Gabriela Medeiros
Fotos: Vinícius Mochizuki (@viniciusmochizuki)
Assistentes de fotografia: Rodrigo Rodrigues e Josias Vieira (@josiasvieirareal)
Estilo: Fernanda Brasil (@fernandah_brasil)
Beleza: Walter Lobato (@walterlobato_)
Leticia Colin em ensaio exclusivo para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
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Leticia Colin estreia como mocinha das nove e fala de preparação para tragédias da trama: 'Análise me deixa resistente para trabalhar em paz'
