Filha de diplomatas, Mariana Tanaka Abdul Hak, 20 anos, passou boa parte da vida no estrangeiro. Depois de concluir o curso de Administração de Empresas na ESCP Business School, na Itália, no início do mês, decidiu voltar ao Brasil para, nas palavras de seu pai, “recriar raízes”. No último sábado, ela chegou ao Rio — onde havia alugado apartamento, em Ipanema, e começaria a trabalhar em uma multinacional do setor de cosméticos. Acompanhada pela mãe, foi à rua comprar itens para a casa, como um travesseiro. Naquele mesmo dia, pouco antes das 17h, as duas estavam na calçada da Rua Visconde de Pirajá quando foram atropeladas por uma van.
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Lesão corporal culposa
A jovem não resistiu aos ferimentos e morreu no domingo, no Hospital Miguel Couto. O caso — registrado como lesão corporal culposa e investigado pela 14ª DP (Leblon) — é um retrato particularmente trágico da violência crescente no trânsito. Mãe de Mariana, a diplomata Ana Patrícia Neves Abdul Hak, cônsul-adjunta do Brasil em Buenos Aires, sofreu luxações por todo o corpo ao ser atingida. Após levar pontos no rosto, recebeu alta. Um terceiro pedestre, identificado como Sérgio da Costa Luiz, também foi atendido, mas se recusou a ficar internado, segundo a Secretaria municipal de Saúde.
RIO_20-05-mortos e feridos no trânsito
O Estado do Rio teve 787 homicídios culposos — como as mortes no trânsito são registradas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) — de janeiro a abril deste ano, o que equivale a uma vítima a cada três horas e meia, em média. O número para o período não era tão alto desde 2011, quando houve 795 registros. O ISP ainda contabilizou 9.072 lesões corporais culposas produzidas no tráfego fluminense nos quatro primeiros meses deste ano, aproximadamente uma a cada 20 minutos: é o maior índice desde 2016, quando 11.677 casos foram registrados de janeiro a abril.
A desejada volta ao Brasil
O diplomata brasileiro Ibrahim Abdul Hak Neto, integrante da assessoria especial internacional do presidente Lula — que na tarde de ontem telefonou para Ibrahim para expressar suas condolências —, contou que a filha passou alguns dias com ele em Brasília antes de viajar para o Rio. O pai a deixou no aeroporto da capital federal no sábado, onde a jovem pegou o voo de meio-dia rumo ao Santos Dumont, para se encontrar com a mãe.
Mariana e Ana Patrícia — que não tem memórias do acidente e está precisando de cadeira de rodas para se locomover — deixaram as malas no apartamento em Ipanema e, na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Vinicius de Moraes, acabaram atropeladas. A jovem foi imprensada contra um poste.
Com traumatismo craniano, a administradora de empresas chegou a passar por cirurgias, mas não resistiu. Mariana será sepultada no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, na capital paulista, amanhã, em cerimônia restrita a parentes e amigos. A jovem deixa, além dos pais, que embarcaram para São Paulo ontem, o irmão de 24 anos.
— Todo pai e toda mãe fazem enormes sacrifícios, investem os seus recursos, dão a melhor educação, colocam o máximo de dinheiro e o máximo de amor (nos filhos). Então, interromper um projeto desses no auge, quando as conquistas acontecem, ela recém-formada, se sentindo habilitada a olhar para trás falando “todo o meu esforço de vida valeu apena”, é muito duro — afirmou Ibrahim, para quem a filha estava no “auge da felicidade”.
Mariana falava português, inglês, espanhol e francês. Antes de decidir se radicar no Rio de Janeiro, já havia morado em países como França, Itália, Líbano, Reino Unido e Venezuela.
Problemas na direção
Motorista da van, que havia começado no emprego há cerca de uma semana, Lucas Leandro do Espírito Santo Marques relatou a policiais militares que o veículo “travou a direção” e “o freio não funcionou”. As informações foram registradas pelo sargento responsável pela ocorrência na 14ª DP. O policial informou ainda que não havia marcas de freio no local, assim como o condutor “não apresentava nenhuma alteração”. Segundo matéria exibida no RJTV2, a Polícia Civil informou que o motorista fez testes que descartaram o uso de álcool ou drogas.
Uma câmera de segurança registrou o momento do atropelamento. O relógio marcava 16h58 de sábado quando a van, que andava dentro da velocidade permitida, trafegava pela pista da esquerda da Visconde de Pirajá. Próximo à esquina com a Rua Vinicius de Moraes, o automóvel, um modelo elétrico, de uma empresa terceirizada a serviço da plataforma Mercado Livre, começou a se aproximar da calçada, até subir o meio-fio e se chocar com o poste de um sinal de trânsito.
O Corpo de Bombeiros já foi acionado para 29.505 ocorrências de trânsito este ano (o recorte é de 1º de janeiro até anteontem), número 6% maior que as 27.743 registradas pela corporação no mesmo período do ano passado. Os atropelamentos, no entanto, caíram 1% neste ano: foram 3.427 (o mesmo período do ano passado teve 3.473 casos do tipo).
Analisados os dados do ISP para homicídio culposo por região, houve crescimento na quantidade de vítimas na capital e na Baixada Fluminense nos primeiros quatro meses deste ano, enquanto o número de mortos caiu na Grande Niterói (que engloba os municípios de Niterói, São Gonçalo e Maricá) e no interior do estado. A região com mais ocorrências é a capital, que concentra 35% das vítimas.
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Rio tem maior número de mortes no trânsito desde 2011: uma vítima a cada três horas e meia
