O olhar das favelas pelas lentes dos crias; veja imagens

Fotógrafos que vivem nas favelas do Rio de Janeiro usam a câmera para contar histórias de dentro do território. Suas imagens registram o cotidiano, os afetos, as transformações e as resistências da comunidade, rompendo com olhares externos que historicamente associam esses espaços apenas à violência. Ao construir suas narrativas, esses profissionais produzem memória coletiva, fortalecem a identidade local e democratizam o acesso à comunicação.
Mais do que registrar, esses fotógrafos disputam a forma como a favela é vista e compreendida. Suas lentes revelam a complexidade do território: cultura, trabalho, lazer, fé e soluções criadas pela própria comunidade diante das ausências do Estado.
O EXTRA convidou fotógrafos que vivem nas favelas do Rio para selecionar imagens que, na visão deles, melhor retrataram o território onde moram. As fotografias escolhidas mostram a favela a partir de dentro — com potências, afetos, cultura e cotidiano. .
A imagem que abre esta reportagem — intitulada “Arte no alto do morro” — foi captada pela fotógrafa, diretora criativa e pesquisadora Salemm, conhecida como Fotogracria, nascida criada na Roscinha, Zona Sul do Rio. Seu trabalho articula fotografia, memória e ancestralidade a partir da vivência no próprio território, conectando passado e presente para afirmar a favela como espaço de produção de arte, conhecimento e futuro. Em seus registros, a criação artística aparece como prática cotidiana e gesto de resistência. “Gosto de ver artistas se expressando juntos. Dois jovens praticam artes — barbearia e artes plásticas — como um ritual cotidiano de expressão e autoconhecimento, em uma laje, no alto da favela, num momento intimista que é resistência em estado puro”, afirma Salemm.
A seguir, conheça o trabalho de mais três fotógrafos que retratam a comunidade a partir da própria vivência:
Thais Alvarenga (Vila Kennedy)
“Os meninos e a bola”
Garotos se divertem jogando futebol em campo de terra
Thais alvarenga
Nascida e criada na Vila Kennedy, na Zona Oeste, Thais Alvarenga é fotógrafa documentarista formada pela Escola de Fotografia Popular e graduada em Comunicação Social. Seu trabalho tem como foco as relações cotidianas da periferia, valorizando identidades, memórias e afetos do território onde vive. Ao fotografar vizinhos, festas, encontros e silêncios, constrói uma narrativa sensível sobre a juventude e o direito ao lazer na favela. “Vejo jovens negros vivos, ocupando a cidade e exercendo o direito ao lazer. A imagem fala de bem-viver e traduz a poética cotidiana da juventude favelada, onde brincar, existir e sonhar fazem parte do mesmo gesto”, diz Thais.
Douglas Dobby (Morro da Providência)
“O homem-pipa”
Soltar pipa é uma tradição nas comunidades
Douglas Dobby
Homem negro, cria do Morro da Providência, Douglas Dobby iniciou na fotografia por meio de um curso na Casa Amarela Providência. No local, coordenou o setor de audiovisual entre 2016 e 2025, no alto do morro que concentra parte fundamental da história e da resistência das favelas cariocas. Por meio das redes sociais, publica fotografias e vídeos com um olhar sensível sobre o território onde vive. Seu trabalho busca desconstruir estigmas e preconceitos associados às favelas, mostrando que a Providência é muito mais do que o imaginário externo costuma enxergar. “Soltar pipa na favela representa a permanência de tradições culturais passadas de geração em geração, reafirmando o brincar como linguagem coletiva e expressão de identidade”, diz Douglas.
Josiane Santana (Complexo do Alemão
“Flayra”
A jovem Flayra foi fotografada aos 19 anos, prestes dar à luz
Josiane Santana
Mãe, fotógrafa documental, comunicadora comunitária e jornalista, Josiane Santana é cria do Complexo do Alemão, na Zona Norte. Integrante do coletivo Favelagrafia e vencedora de dois Leões de Bronze no Cannes Lions, atua no fortalecimento das narrativas das favelas por meio da imagem e da palavra. Sua trajetória começou na Nave do Conhecimento da Nova Brasília, onde hoje trabalha como supervisora e arte-educadora, formando novos olhares sobre o território. “Flayra tem 19 anos e em breve dará à luz Bryan. Durante aulas de um projeto social no Alemão, ganhou um ensaio fotográfico no território onde vive. No ventre que carrega vida, pulsa também a esperança: mesmo entre ausências e preconceitos, o futuro insiste em nascer”, conta Josiane.



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